
Dei o pontapé de saída num dia muita reflexão, de muita angústia, de muita incerteza.
Quero destinar este espaço à problemática da relação mãe-filho; professor-aluno; enfim… adulto- jovem, criança.
Para começar escolhi o difícil tema Mãe.
As mães têm um papel indubitavelmente fundamental na formação e educação dos seus filhos. E isso é ponto assente.
E quando as coisas falham?
E quando há cisões no núcleo familiar e os filhos são instrumentalizados? Como fica e onde fica esse papel, tão imensurável e indiscutivelmente importante?
E quando surgem outras pessoas para as quais o nosso dicionário inventou nomes tão feios como madrasta ou padrasto?
Detesto estes nomes, sobretudo o de madrasta. Fazem-me lembrar aquelas histórias que nos contavam em crianças e na qual estas pessoas desempenhavam sempre um papel maquiavélico.
No dicionário electrónico Priberam, a definição de madrasta aparece nos seguintes termos:
1. Mulher casada, em relação aos filhos que seu marido teve, de núpcias anteriores.
2. Fig. Mãe que maltrata os filhos. adj. f.
3. Descaroável, ingrata, cruel.
Feio, não é? Assustador, ingrato, sinistro, medonho e quantas vezes falso…??!!
Lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo e do direito da adopção por casais homossexuais à parte, não poderá uma criança ter duas “mães”? Não se tornará a sinistra figura da madrasta numa segunda mãe? Ou por vezes na única?
Imaginemos, apenas imaginemos, um convívio familiar, entre madrasta e enteado que se estende por décadas e propícia o desenvolvimento de uma cumplicidade maternal. Que é a madrasta que está presente quando o enteado adoece, quando a enteada dá entrada na maternidade, quando o filho do marido (e não dela) se separa da sua esposa ou quando a filha do esposo (e também não dela) termina a sua licenciatura.
Imaginemos, simplesmente imaginemos, que é essa figura que o nosso imaginário colectivo conotou como feia e má, que toma como seu neto o filho da enteada e que com ele sofre as cólicas; que o adormece nos braços quando os dentes ameaçam romper; que o vai espreitar ao intervalo da escola primária; que… enfim, que lhe provoca um brilho nos olhos, de orgulho, quando o petiz começa a tornar-se homenzinho.
A mãe, aquela que efectivamente concebeu e deu à luz, esteve longe por motivos pessoais, profissionais, de estado ou de consciência. O tempo passou e longe continuou, agora por motivos de saúde ou de doença, de esquecimento ou de percepção, de deslembrança ou de circunstância, mas não está, tal como não esteve.
Quem esteve e está foi a figura que a nossa cultura imortalizou como cruel e o nosso imaginário conotou como invariavelmente ingrata e malvada, que roubou o lugar da mãe.
Será?
Isto da linguística, da tradição, da memória colectiva tem muito que se lhe diga, não tem?

Nenhum comentário:
Postar um comentário