Maria Mãe

"É preciso uma aldeia para educar uma criança".
Este é um blog de partilha de experiências ligadas à temática da maternidade e ao futuro dos nossos jovens.
Aceita-se a colaboração de mães, pais, avós, professores, médicos, políticos, artistas, artesãos, miltares, economistas, engenheiros... cidadãos.
Toda a ALDEIA!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Já chega!

Parei a “estória” do Matias, mas prometo recomeçá-la em breve.
Vou “saltar” vinte e tal anos e partilhar um pouco da minha angústia.
O Matias foi o primeiro filho, mas outros se seguiram. Irmãos, irmã.
A irmã do Matias, a Matilde, sempre foi muito senhora do seu nariz! Determinada, trabalhadora, responsável, persistente, auto-confiante. Tudo aquilo de que uma mãe se pode orgulhar, “encher a boca” com o desempenho escolar, “babar-se” com as fotos, etc.
Aos dezasseis anos, a Matilde entendeu que já tinha idade para namorar! Dezasseis anos… tão nova!
“Mas o que é que tu entendes por namorar? Ainda és muito nova e a escola…”
“ A escola estará sempre à frente. Sou responsável. Todas as minhas amigas namoram. Todas, menos eu! Eu vou provar que sou uma mulher (aos 16 anos…)! Ele é o homem da minha vida (ele de 17 anos…!). Vocês vão ver. Eu sei o que sinto. Eu amo-o. “ e blá, blá,blá.
A muito custo, lá consentimos o namoro. Afinal, até nisto ela mostrou responsabilidade e respeito pelos pais. Poderia simplesmente ter começado o namorico e nada dizer… deve ser o mais habitual. Mas não. Ela queria tudo bem definido.
Confesso que me custou, e ainda me custou mais quando meia dúzia de meses depois, a Matilde comunicou que o namoro tinha terminado.
Poderia ter relembrado todo o seu discurso, de mulher, de amor da sua vida, mas achei que o melhor era calar. De parva ela não tem nada, certamente percebeu, aprendeu. E tinha cumprido a sua promessa. Os resultados escolares mantinham-se num alto nível de desempenho. Ponto final no assunto namoro.
Passados uns meses, o olhar da Matilde começa a brilhar, novamente, de forma diferente. As sms não paravam, a toda a hora. Percebi que havia, novamente, “mouro” na costa. Mais uma vez, a irmã do Matias comunicou aos pais o seu “amor”. Comunicou apenas, já não pediu autorização para…
Será que a autorização dos pais é uma decisão vitalícia e irrevogável??
Mas desta vez foi diferente. Conheci o rapazote. Muito querido, por sinal. Simpático, bem formado. Jogador de uma equipa de râguebi, afastado da família, pois estudava fora. Aos fins de semana, quer chovesse quer fizesse sol, lá ia eu com a minha filha assistir aqueles jogos, no meio da lama ou debaixo de um sol abrasador. Conheci os pais do garoto, que me pediram para que “olhasse” por ele, uma vez que eles estavam longe.. Ia buscá-lo, ia levá-lo. Assistia aos jogos e aos treinos. Horas e horas a torcer por uma equipa que jogava uma coisa completamente absurda, a meu ver. Mas lá estava. Afeiçoei-me ao rapazito. Mandava-lhe sms antes de cada jogo importante, ou de cada exame. Ele respondia, agradecendo, sempre. Passei a ter outro filho.
Ao fim de um tempo, seis meses, talvez, a Matilde comunica que o jogador já era.Tinham acabado! Nem queria acreditar! O “meu” menino do râguebi? Eu gostava tanto dele!! Tão querido, educado, atencioso. E os pais, coitados? Até me tinham “confiado” o acompanhamento dele! Não acredito, “mas tu não tens juízo, filha?” A resposta foi um olhar fulminante e um bater da porta do quarto.
Pelo menos, a sinceridade, a abertura e as boas notas mantinham-se.
Após uns tempos, um outro rapazote começou a rondar a porta.
Vinha buscar a Matilde para a acompanhar até à escola. Uma outra vez, vinha eu a sair com a minha filha, trazendo o saco do lixo na mão. Qual não é o meu espanto quando o dito rapazote (aparecido não sei de aonde), pegou no dito saco e foi depositá-lo no contentor!
E lá apareceu o brilhozito nos olhos dela, lá recomeçaram as sms, lá voltámos a esticar o cabelo (já de si bem liso), a pintar as unhas, a ter o máximo cuidado com a indumentária.
Até que um dia, o dito rapaz, aborda-me dizendo que namorava com a Matilde.
“Outro?, pensei…”.
E lá comecei tudo de novo. Mas este rapazito parecia-me ainda mais especial do que o último. Extremamente educado, simpático, solicito. Tratava-me pelo meu título académico – Drª – e não por D. ou Srª, convidava-me para almoçar com eles, ou só com ele, quando a Matilde não podia estar. Falava-me da vida dele, dos seus objectivos, das suas preocupações. Conversava sobre o Matias, a Matilde e os irmãos. Elogiava os meus filhos. Nutria uma especial admiração por mim, segundo as suas palavras. Às tantas, estava mais “rendida” do que a Matilde.
Entretanto, foi estudar para fora. Correspondia-se comigo por e-mail. Pedia-me que tomasse conta(!) da Matilde, em todos os mails reforçava a confiança e a amizade que nutria por mim. Dei voltas e mais voltas para lhe conseguir uma passagem área, durante o verão, a preços reduzidos. Fui buscá-lo ao aeroporto, como se fosse outro filho meu. E assim continuámos… até hoje.
Hoje, ao sair do meu local de trabalho, estava o “meu genro” à porta, à minha espera. Dei-lhe um abraço forte, como se dá a um genro, pois não sabia que ele estava em Portugal. Perguntei-lhe se estava tudo bem. A resposta que obtive foram duas lágrimas a escorrerem-lhe pela cara. Apenas disse “Sabe como é a Matilde…, mas o que interessa é que esteja tudo bem com ela e com vocês. Eu cá hei-de recompor-me.”
“Ele há-de recompor-se… e eu? Já chega! Não quero saber de mais namoros! Sou coração de manteiga, mesmo. Mas quem manda a mim afeiçoar-me desta forma? Agora sofro as dores do miúdo como fossem as minhas! Maldita a hora em que autorizámos o primeiro namoro! Agora choro o desgosto do rapazito, em silêncio, pois a Matilde lá deve ter as suas razões. As filhas têm razões que as mães desconhecem…”
Filhos criados, trabalhos dobrados!!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Precious


Um dos filmes mais tocantes, mais chocantes, mais comoventes e "crús" dos últimos tempos.
De um lado, tudo o que uma mãe não pode ser. Do outro lado, tudo o que uma mãe luta para o ser.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Nasceu


O que é bonito neste mundo, e anima,

É ver que na vindima

De cada sonho

Fica a cepa a sonhar outra aventura…

E que a doçura

Que se não prova

Se transfigura

Numa doçura

Muito mais pura

E muito mais nova…


Miguel Torga, Confiança

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Veredicto


“Drª, está aqui o relatório de eco que fiz ontem. Que se passa, Drª? Está tudo bem? Que problema encontraram? O bebé é saudável?”
Silêncio.
As pernas na mãe do Matias tremiam. Tinha decidido que iria sozinha à consulta. Sem saber muito bem porquê, o choque levara-a a desenvolver um sentimento misto de incredulidade e vergonha. Se algo estivesse a correr menos bem com o bebé, só ela haveria de o saber, mais ninguém. Seria um segredo só dela. Não queria arriscar em nada; tudo estava preparado para receber o Matias em ambiente de festa e sentia o peso da desilusão de uma família em cima dos seus ombros ou, por outra, dentro do seu ventre.
Até poderia dar-se o caso de rejeitarem o Matias, mesmo antes de ele nascer. Afinal uma reacção lógica, para se protegerem a eles próprios (avós, tios e próprio pai) de se afeiçoar a um projecto de neto, sobrinho, filho que viria ao mundo com uma deficiência anunciada.
Não. Ninguém iria saber de nada.

Sete meses de gravidez. Sete meses de sonhos, de projectos, de planos, de entusiasmo, de fantasia, de paixão, de projecção naquele ser que mexia e remexia, que soluçava, que crescia dentro dela. Se depois de ele nascer se apercebessem do caso grave do Matias, então, aí, quem quisesse que virasse costas, mas não antes. Até lá, levaria o sonho de todos até ao fim, até às últimas consequências. Cobardia? Vergonha? Tentativa de o proteger o mais possível? Não sei, até hoje ninguém sabe.
“Pois, o bebé tem um problema grave, que não tem cura. Não há dúvidas quanto a isso e nada se pode fazer para alterar esta realidade. É assim e é com isso que vai ter de se habituar a viver”.
“Mas porquê, Drª? O que levou a que isto tivesse acontecido? “
“E que lhe importa agora saber isso? Muitos factores. É uma doença relativamente rara, genética, cujos factores não estão bem definidos. Mas o mundo não acaba. Há muita gente assim e com problemas bem piores e vai sobrevivendo, por isso deixe-se de dramas e de querer encontrar uma explicação para tudo. E essas lágrimas não vão alterar em nada. Conforme-se!”
Ainda faltavam dois meses para o parto. A barriga continuava a parecer que anunciava gémeos ou então um bebé muito grande.
Todos opinavam sobre o Matias e o parto do Matias. “Vai ter de ser cesariana, pois com esse tamanho todo…”
“A mãe também nasceu muito grande, com quase 5kg, tal como seu pai”, comentava a avó materna do Matias.
E à medida que o tempo decorria, a protecção que a mãe do Matias lhe podia dar esgotava-se também. Como iria ser quando ele se apresentasse ao mundo, carregando um problema para o qual a sua contribuição tinha sido nula? Como iria ser recebido? Como iria crescer? Como iria enfrentar a diferença e a crueldade tão própria e intrínseca dos ditos “normais”?
Que poderia a mãe do Matias fazer?
Esperar. Esperar por um milagre.
Esperar que aquelas tabelas malditas que colocam, formatam todos os bebés no seu devido “patamar” estivessem erradas.
Esperar que uma solução milagrosa aparecesse. Esperar que a Esperança fosse a última a morrer.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Dia "D"


Ainda faltavam três meses e a mala já estava prontinha, à porta de casa, com tudo o que era necessário para receber o Matias na maternidade.

Ao sexto mês de gravidez, aquela menina-mulher-quase mãe, de vinte e poucos anos de idade, dona de uma alegria esfuziante, de um orgulho imenso na sua barriga que perecia de gémeos e de um comportamento muito próprio de quem vai ser mãe pela primeira vez, devorava tudo quanto era livros de puericultura, conhecia todas as lojas de roupinhas para bebés e sabia, de cor e salteado, as marcas de maior confiança de cadeirinhas, carrinhos, biberons. As tetinas de borracha não serviam, tinham de ser de silicone. Os biberons de vidro, porque o plástico degrada-se com a fervura, as roupinhas de algodão, não fosse o bebé ter alguma alergia aos sintéticos.

As consultas estavam todas programadas desde o início e aquele dia era um dos dias D. “D” não de consulta, não de compras. “D”, “De ver”. Era o dia da ecografia. Muitas vezes, a mulher se havia questionado se tanta ecografia não faria mal ao aparelho auditivo do bebé. Ultrasons… A talidomida ainda não era coisa que se tivesse esquecido. Lá foi a mulher, acompanhada do pai daquele tesouro que ela guardava na barriga, à cidade, exactamente ao local indicado pelo médico, por ter bons profissionais e tecnologia de ponta.

A cada quilómetro que percorria, a ansiedade aumentava. É hoje! Hoje iam descobrir mais um bocadinho do Matias. Ele não tem parado, mexe e remexe, dá pontapés, até parece que se apercebe que iam visitá-lo ao seu “casulo”. A barriga, já enorme, não obrigou a mãe a beber litradas de água, mas com barriga grande ou sem ela, teve de esperar, na sala de espera, sem paciência alguma, pela sua vez.

“Chamaram-nos! Vamos! Despacha-te.”

A mãe do Matias deitou-se na cama, enrolou o vestido até ao peito, exibiu, orgulhosamente, a sua barriga de seis meses que todos achavam que era de gémeos, fixou o minúsculo ecrã a preto e cinza e pôs-se a tentar descortinar aquelas manchas que apareciam. O pai do Matias, em pé, atrás da mãe, todo orgulhoso acompanhava cada imagem que aparecia no pequeno ecrã.

“O que é isto? E isso? O quê? Não parece nada!! Estás a ver as mãozinhas? Aquilo é o pé? Agora pôs o dedo na boca!”

Mas, repentinamente, fez-se um silêncio estranho. O médico deixou de explicar o que estavam a ver, deixou de comentar as baboseiras da mãe do Matias e os sorrisos rasgados do pai. A mãe continuava “ e isso é o quê, doutor? E aquilo?” Nada de resposta.

“Que coisa tão torta!”, continuava a mãe. E o médico insistia no seu silêncio.

Por fim, “Bom, minha senhora, já pode levantar”.

“Mas está tudo bem?”

“Leve esta cartinha à sua médica, ela explica-lhe tudo. Volte cá daqui a três semanas”.

Passou um envelope fechado para as mãos trémulas da mãe do Matias e disse “até daqui a três semanas”. Passe bem.

As mãos tremiam, segurando aquele envelope; as pernas vacilavam, ora na direcção do médico, ora na direcção da porta da clínica e da boca saiam-lhe sons imperceptíveis de incredulidade.

Três semanas que iam subtrair-se aos três meses que ainda faltavam.

Três longas semanas que se converteram em vinte e um dias, milhares de horas de espera, de sufoco, de consulta de enciclopédias médicas e estudos estatísticos. De procura de porquês, de tentativas de explicação, de esclarecimentos, de orações, de promessas, de lágrimas, de dor, de desespero, de inconformismo, de angústia, de aflição e de silêncio.

Um pesado silêncio , pois certamente estava tudo bem com o Matias e a próxima ecografia confirmá-lo-ia. Era desnecessário estar a preocupar os tios, os avós e a restante família. Matias era o primeirinho a chegar, dessa nova geração e para quê preocupar os outros? As coisas iam resolver-se e passado três semanas, já estaria tudo dentro das escalas e tabelas estudadas e desenvolvidas pelos americanos, esse povo de gente grande e obesa que faz tudo à escala deles…