
“Drª, está aqui o relatório de eco que fiz ontem. Que se passa, Drª? Está tudo bem? Que problema encontraram? O bebé é saudável?”
Silêncio.
As pernas na mãe do Matias tremiam. Tinha decidido que iria sozinha à consulta. Sem saber muito bem porquê, o choque levara-a a desenvolver um sentimento misto de incredulidade e vergonha. Se algo estivesse a correr menos bem com o bebé, só ela haveria de o saber, mais ninguém. Seria um segredo só dela. Não queria arriscar em nada; tudo estava preparado para receber o Matias em ambiente de festa e sentia o peso da desilusão de uma família em cima dos seus ombros ou, por outra, dentro do seu ventre.
Até poderia dar-se o caso de rejeitarem o Matias, mesmo antes de ele nascer. Afinal uma reacção lógica, para se protegerem a eles próprios (avós, tios e próprio pai) de se afeiçoar a um projecto de neto, sobrinho, filho que viria ao mundo com uma deficiência anunciada.
Não. Ninguém iria saber de nada.
Sete meses de gravidez. Sete meses de sonhos, de projectos, de planos, de entusiasmo, de fantasia, de paixão, de projecção naquele ser que mexia e remexia, que soluçava, que crescia dentro dela. Se depois de ele nascer se apercebessem do caso grave do Matias, então, aí, quem quisesse que virasse costas, mas não antes. Até lá, levaria o sonho de todos até ao fim, até às últimas consequências. Cobardia? Vergonha? Tentativa de o proteger o mais possível? Não sei, até hoje ninguém sabe.
“Pois, o bebé tem um problema grave, que não tem cura. Não há dúvidas quanto a isso e nada se pode fazer para alterar esta realidade. É assim e é com isso que vai ter de se habituar a viver”.
“Mas porquê, Drª? O que levou a que isto tivesse acontecido? “
“E que lhe importa agora saber isso? Muitos factores. É uma doença relativamente rara, genética, cujos factores não estão bem definidos. Mas o mundo não acaba. Há muita gente assim e com problemas bem piores e vai sobrevivendo, por isso deixe-se de dramas e de querer encontrar uma explicação para tudo. E essas lágrimas não vão alterar em nada. Conforme-se!”
Ainda faltavam dois meses para o parto. A barriga continuava a parecer que anunciava gémeos ou então um bebé muito grande.
Todos opinavam sobre o Matias e o parto do Matias. “Vai ter de ser cesariana, pois com esse tamanho todo…”
“A mãe também nasceu muito grande, com quase 5kg, tal como seu pai”, comentava a avó materna do Matias.
E à medida que o tempo decorria, a protecção que a mãe do Matias lhe podia dar esgotava-se também. Como iria ser quando ele se apresentasse ao mundo, carregando um problema para o qual a sua contribuição tinha sido nula? Como iria ser recebido? Como iria crescer? Como iria enfrentar a diferença e a crueldade tão própria e intrínseca dos ditos “normais”?
Que poderia a mãe do Matias fazer?
Esperar. Esperar por um milagre.
Esperar que aquelas tabelas malditas que colocam, formatam todos os bebés no seu devido “patamar” estivessem erradas.
Esperar que uma solução milagrosa aparecesse. Esperar que a Esperança fosse a última a morrer.
Silêncio.
As pernas na mãe do Matias tremiam. Tinha decidido que iria sozinha à consulta. Sem saber muito bem porquê, o choque levara-a a desenvolver um sentimento misto de incredulidade e vergonha. Se algo estivesse a correr menos bem com o bebé, só ela haveria de o saber, mais ninguém. Seria um segredo só dela. Não queria arriscar em nada; tudo estava preparado para receber o Matias em ambiente de festa e sentia o peso da desilusão de uma família em cima dos seus ombros ou, por outra, dentro do seu ventre.
Até poderia dar-se o caso de rejeitarem o Matias, mesmo antes de ele nascer. Afinal uma reacção lógica, para se protegerem a eles próprios (avós, tios e próprio pai) de se afeiçoar a um projecto de neto, sobrinho, filho que viria ao mundo com uma deficiência anunciada.
Não. Ninguém iria saber de nada.
Sete meses de gravidez. Sete meses de sonhos, de projectos, de planos, de entusiasmo, de fantasia, de paixão, de projecção naquele ser que mexia e remexia, que soluçava, que crescia dentro dela. Se depois de ele nascer se apercebessem do caso grave do Matias, então, aí, quem quisesse que virasse costas, mas não antes. Até lá, levaria o sonho de todos até ao fim, até às últimas consequências. Cobardia? Vergonha? Tentativa de o proteger o mais possível? Não sei, até hoje ninguém sabe.
“Pois, o bebé tem um problema grave, que não tem cura. Não há dúvidas quanto a isso e nada se pode fazer para alterar esta realidade. É assim e é com isso que vai ter de se habituar a viver”.
“Mas porquê, Drª? O que levou a que isto tivesse acontecido? “
“E que lhe importa agora saber isso? Muitos factores. É uma doença relativamente rara, genética, cujos factores não estão bem definidos. Mas o mundo não acaba. Há muita gente assim e com problemas bem piores e vai sobrevivendo, por isso deixe-se de dramas e de querer encontrar uma explicação para tudo. E essas lágrimas não vão alterar em nada. Conforme-se!”
Ainda faltavam dois meses para o parto. A barriga continuava a parecer que anunciava gémeos ou então um bebé muito grande.
Todos opinavam sobre o Matias e o parto do Matias. “Vai ter de ser cesariana, pois com esse tamanho todo…”
“A mãe também nasceu muito grande, com quase 5kg, tal como seu pai”, comentava a avó materna do Matias.
E à medida que o tempo decorria, a protecção que a mãe do Matias lhe podia dar esgotava-se também. Como iria ser quando ele se apresentasse ao mundo, carregando um problema para o qual a sua contribuição tinha sido nula? Como iria ser recebido? Como iria crescer? Como iria enfrentar a diferença e a crueldade tão própria e intrínseca dos ditos “normais”?
Que poderia a mãe do Matias fazer?
Esperar. Esperar por um milagre.
Esperar que aquelas tabelas malditas que colocam, formatam todos os bebés no seu devido “patamar” estivessem erradas.
Esperar que uma solução milagrosa aparecesse. Esperar que a Esperança fosse a última a morrer.

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