Ainda faltavam três meses e a mala já estava prontinha, à porta de casa, com tudo o que era necessário para receber o Matias na maternidade.
Ao sexto mês de gravidez, aquela menina-mulher-quase mãe, de vinte e poucos anos de idade, dona de uma alegria esfuziante, de um orgulho imenso na sua barriga que perecia de gémeos e de um comportamento muito próprio de quem vai ser mãe pela primeira vez, devorava tudo quanto era livros de puericultura, conhecia todas as lojas de roupinhas para bebés e sabia, de cor e salteado, as marcas de maior confiança de cadeirinhas, carrinhos, biberons. As tetinas de borracha não serviam, tinham de ser de silicone. Os biberons de vidro, porque o plástico degrada-se com a fervura, as roupinhas de algodão, não fosse o bebé ter alguma alergia aos sintéticos.
As consultas estavam todas programadas desde o início e aquele dia era um dos dias D. “D” não de consulta, não de compras. “D”, “De ver”. Era o dia da ecografia. Muitas vezes, a mulher se havia questionado se tanta ecografia não faria mal ao aparelho auditivo do bebé. Ultrasons… A talidomida ainda não era coisa que se tivesse esquecido. Lá foi a mulher, acompanhada do pai daquele tesouro que ela guardava na barriga, à cidade, exactamente ao local indicado pelo médico, por ter bons profissionais e tecnologia de ponta.
A cada quilómetro que percorria, a ansiedade aumentava. É hoje! Hoje iam descobrir mais um bocadinho do Matias. Ele não tem parado, mexe e remexe, dá pontapés, até parece que se apercebe que iam visitá-lo ao seu “casulo”. A barriga, já enorme, não obrigou a mãe a beber litradas de água, mas com barriga grande ou sem ela, teve de esperar, na sala de espera, sem paciência alguma, pela sua vez.
“Chamaram-nos! Vamos! Despacha-te.”
A mãe do Matias deitou-se na cama, enrolou o vestido até ao peito, exibiu, orgulhosamente, a sua barriga de seis meses que todos achavam que era de gémeos, fixou o minúsculo ecrã a preto e cinza e pôs-se a tentar descortinar aquelas manchas que apareciam. O pai do Matias, em pé, atrás da mãe, todo orgulhoso acompanhava cada imagem que aparecia no pequeno ecrã.
“O que é isto? E isso? O quê? Não parece nada!! Estás a ver as mãozinhas? Aquilo é o pé? Agora pôs o dedo na boca!”
Mas, repentinamente, fez-se um silêncio estranho. O médico deixou de explicar o que estavam a ver, deixou de comentar as baboseiras da mãe do Matias e os sorrisos rasgados do pai. A mãe continuava “ e isso é o quê, doutor? E aquilo?” Nada de resposta.
“Que coisa tão torta!”, continuava a mãe. E o médico insistia no seu silêncio.
Por fim, “Bom, minha senhora, já pode levantar”.
“Mas está tudo bem?”
“Leve esta cartinha à sua médica, ela explica-lhe tudo. Volte cá daqui a três semanas”.
Passou um envelope fechado para as mãos trémulas da mãe do Matias e disse “até daqui a três semanas”. Passe bem.
As mãos tremiam, segurando aquele envelope; as pernas vacilavam, ora na direcção do médico, ora na direcção da porta da clínica e da boca saiam-lhe sons imperceptíveis de incredulidade.
Três semanas que iam subtrair-se aos três meses que ainda faltavam.
Três longas semanas que se converteram em vinte e um dias, milhares de horas de espera, de sufoco, de consulta de enciclopédias médicas e estudos estatísticos. De procura de porquês, de tentativas de explicação, de esclarecimentos, de orações, de promessas, de lágrimas, de dor, de desespero, de inconformismo, de angústia, de aflição e de silêncio.
Um pesado silêncio , pois certamente estava tudo bem com o Matias e a próxima ecografia confirmá-lo-ia. Era desnecessário estar a preocupar os tios, os avós e a restante família. Matias era o primeirinho a chegar, dessa nova geração e para quê preocupar os outros? As coisas iam resolver-se e passado três semanas, já estaria tudo dentro das escalas e tabelas estudadas e desenvolvidas pelos americanos, esse povo de gente grande e obesa que faz tudo à escala deles…

Maria
ResponderExcluirFiquei ansiosa para saber o resultado da ecografia. O que disse a médica?
Bjs
Olá, Teresa
ResponderExcluirO que a médica disse e sobretudo a forma como o disse, foi algo que fez desmoronar a meu pequeno mundo e ao mesmo tempo o meu grande sonho. Só me restava(restou) a esperança... Bj